A pedra não canta mais…

Pesquisando na internet sobre o 8º Fórum Mundial da Água, que aconteceu em março deste ano em Brasília, encontrei um post de Itaipu, que abri imediatamente (https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=mDI1Ve4WzHE). Trata-se de um vídeo sobre duas apresentações de Itaipu durante o Fórum. Assisti, assisti e acabou. Falou-se, de forma fragmentada, dos projetos socioambientais da empresa, mas nem uma única citação ao programa Cultivando Água Boa– CAB.  Itaipu é uma referência mundial em sustentabilidade social e ambiental em razão do imenso sucesso do CAB, que, além de vários outros, recebeu em 2015 o prêmio Water for Life da ONU-Água, como a melhor prática global em recursos hídricos. Todo ano, durante meus 8 anos na ANA, participei dos Encontros Cultivando Água Boa, em Foz de Iguaçu. Eventos vibrantes, com milhares de pessoas, jovens, indígenas, donas de casa que transmitiam energia tão grande quanto os megawatts da usina. Em Itaipu conheci líderes incríveis como Jorge Samek, Nelton Friedrich e Jair Kotz.

Nesses anos todos eu acompanhava Nelton nas tentativas de convencer outras empresas de energia a adotarem o CAB.  Fracassos. Impressionante como a direção das elétricas no país são atrasadas e refratárias em estabelecer relações sólidas com as comunidades que os seus reservatórios impactam, mas os fracassos não abalavam a convicção em ampliar o programa. Não deu certo no Brasil, mas através da Agência Brasileira de Cooperação-ABC, que é vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, foi possível levar o Cultivando Água Boa para a Guatemala e República Dominicana. Quando deixei a ANA, havia recursos para implantar o CAB em outros países. Compartilhei da felicidade como brasileiro de ouvir o relato emocionante dos representantes desses países dos avanços que o CAB possibilitou.  Era o Brasil, não só Itaipu.

Voltando ao vídeo:  tive a desagradável sensação – não sei se quem assistiu também teve – de uma tentativa de ir apagando a história desse programa porque ele está ligado fortemente a um período florescente de Itaipu nos governos Lula e Dilma, e às pessoas que o conceberam e conduziram durante anos.

No início de 2017, visitei Itaipu pela última vez, acompanhando o Ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, e tive oportunidade de argumentar com o então diretor-geral brasileiro, eng. Luiz Vianna, uma pessoa preparada e sensata, sobre a importância de manter o programa, não apenas pelos seus resultados concretos nas bacias do Reservatório de Itaipu, não apenas porque é (era?)  um programa prioritário de cooperação do Brasil com outros países, mas por ser um exemplo real e concreto de que quando há vontade política é possível fazer. Não tive a oportunidade de tratar deste assunto com o atual diretor-geral, Marcos Vitorio Stamm, que assumiu em abril deste ano, mas torço para que ele apoie firmemente o CAB.  Manter o “Cultivando Água Boa” vivo é continuar tentando replicá-lo em outras bacias hidrográficas brasileiras, tão necessitadas quanto degradadas.

Em suas palestras, Jair Kotz sempre lembrava: Itaipu, em tupi-guarani, quer dizer “a pedra que canta”.

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