Sem adutora, sem barragem.

As recentes e intensas crises hídricas provocaram vários sentimentos novos nas pessoas: de um lado, uma maior atenção à proteção e ao uso da água, até com mudança de hábitos de consumo, mas também   uma visível e forte predisposição em apoiar toda obra de infraestrutura que tenha como propósito reduzir os riscos diante de uma nova crise. Há obras importantes sendo realizadas, mas assim como a descabida transposição de águas do rio Tocantins para o Rio São Francisco, que chegou a ser aprovada em várias Câmaras Municipais, as barragens de Pedreira e Duas Pontes não devem ser construídas sem que cumpram efetivamente o objetivo de aumentar a segurança hídrica da população das cidades da região, em particular de mais de um milhão de habitantes de Campinas.

Vejo com preocupação o início da construção da Barragem de Pedreira, cuja maior parte do reservatório inundará áreas frágeis e relevantes da APA de Sousas e Joaquim Egídio em Campinas. O trabalho “Estudos de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental do Sistema Adutor Regional PCJ – SARPCJ”  de abril de 2017, realizado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica-DAEE, órgão estadual responsável pela construção das barragens, afirma  logo na página 5: “Grande parte dos municípios com conflitos intensos pelos recursos hídricos se encontra na porção central das bacias PCJ, próximo aos rios Atibaia, Capivari e Jundiaí. Esses municípios não seriam beneficiados diretamente pelas barragens sem o SARPCJ”. Ou seja, sem as adutoras, as barragens são inúteis para esses municípios, entre eles Campinas.

Sou, por princípio, favorável à construção de reservatórios para o aumento da segurança hídrica. Houve durante anos, no Brasil e no mundo, o que chamamos de “criminalização dos reservatórios”, porém reservatórios não são ruins por natureza. Mas é preciso reconhecer que são empreendimentos polêmicos, caros, impactantes e que alteram a dinâmica ambiental, social, econômica e até cultural nas regiões onde são implantados. Portanto, para construí-los seus benefícios devem ser objetivos.  Sem as adutoras, a barragem de Pedreira só produz impactos, nenhuma gota d´água a mais para Santa Bárbara D’Oeste, Nova Odessa, Sumaré, Monte Mor, Hortolândia, Campinas, Valinhos, Vinhedo, Louveira, Salto, Indaiatuba, Itupeva, Jundiaí, Várzea Paulista e Campo Limpo Paulista, municípios que dependem do SARPCJ. Ainda segundo o estudo do DAEE, o custo total da alternativa considerada a mais favorável para a construção do sistema adutor será de R$ 2,4 bilhões, cerca de 65% a mais do custo total de R$ 1,5 bilhões das barragens. Apenas os custos de operação são estimados em 960 milhões de reais. Não há até hoje definição sobre o projeto, nenhuma informação sobre o financiamento dessas obras, enfim, não há qualquer garantia de que o sistema adutor será realmente construído, muito menos em breve.

A experiência na administração da crise hídrica de 2014/2015 me dá a certeza de que permitir a construção dessas barragens inúteis até a implantação “sabe lá Deus quando” do Sistema Adutor só fará aumentar ainda mais a fragilidade de nossa região na utilização das límpidas águas do Sistema Cantareira na ocorrência de novas estiagens. Pessoalmente, creio que todos os municípios citados deveriam ter como bandeira “Sem sistema adutor, sem barragens”.

Artigo publicado no jornal Correio Popular, no dia 01.07.2108

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